Túnel do Tempo

sábado, 13 de outubro de 2012



Poesias Matutas

ENGENHO QUEBRADO
Autoria:Coroné Cafuçu
Antonio Nascimento 

No Sítio Trapiá tem
Um velho engenho quebrado
Entre as trempes do passado
longe do seu dono muito além
Depois dele está ausente
Ele tornou-se indigente
E órfão de sua riqueza.
Está manchado de preto,
Igual um homem esqueleto
Agonizando a fraqueza.
Da sua ferragem dura
Já se foi mais da metade
Também a outra estrutura
Sumiu-se na tempestade
Está findando o desenho
Das peças do velho engenho
Paró, fornalha e caldeira
Manjara, tronco e moenda
Se botarem para venda
Eu não vejo quem lhe queira.
Com sentimento que tenho
Olhando o martírio dele
Comecei falar por ele
Como se fosse um engenho
Ah! Se chegasse um vivente
Pra me reformar urgente,
Voltando a minha estrutura
Pra ver meu paró enchendo,
Minhas caldeiras fervendo,
E um montão de rapadura.
Já dei tanta alegria
Pra todos eu já dei fartura,
Não faltava rapadura,
Alfenim, garapa fria.
Muita rapa de gamela,
Mel fino numa panela,
Batida e mel com tempero,
Ia pra o povo da praça
Tudo isso era de graça
E ninguém falava em dinheiro.
E esse flagelo meu,
De estar no abandono,
Foi porque perdi meu dono,
E depois que ele morreu,
Aqui vivo abandonado,
Estou deteriorado,
sozinho, sem companhia,
minha carcaça sumindo,
O tempo me consumindo,
até o meu útimo dia.

O vento me dá açoite
O tempo bravo me tomba
Vem o fantasma da noite
Me rodeia grita e zomba
Até um rasga mortalha
Visita o teto sem palha
Nessa solidão percebo
O vento da madrugada
Passa me dando pancada
Calmo e tristonho eu recebo.

Estou perdido na era
Entre os porões do passado
Só um homem iluminado
Me faz voltar o que eu era
Se eu voltasse a trabalhar
E o povo desse lugar
Ficasse perto de mim
Morria a minha pobreza
Nascia a minha riqueza
Meu reino não tinha fim.

Como poeta fiquei
Contagiado de dores
E logo a sair falei
Aos primeiros moradores
Com minha filosofia
E pedi na poesia
Pra o povo que estava lá
Cada um com seu empenho
Dá pra salvar o engenho
Da fazenda Trapiá.


FFOGÃO DE LENHA
Autoria:Coroné Cafuçu

Voltei a casa da gente
Pra cá da curva do venha
Pra ver um fogão de lenha,
Do tempo de antigamente
Depois que o tempo passou-se,
A casa quase acabou-se,
Caibo, ripa, telha e linha,
E pra minha recordação
Só encontrei o fogão
No recanto da cozinha.

Cercado pelos remorsos
Sem ter brasa e sem centelhas,
Dentro de um bojom de troços
De cinza e caco de telhas.
Nas brechas os ratos correndo
Encima aranhas tecendo,
Teias com manchas amarelas
E o vento com um capricho
Jogando ruma de lixo
Onde botavam as panelas.

Eu disse velho fogão
Sinto muito a sua ausência
Eu pequei por inocência
Hoje choro a separação
E de você já fui lenheiro,
Ajudante, cozinheiro,
Te ascendi nos madrigais,
Hoje entre nós é verdade
Tem um fogo de saudade
Que ninguém apaga mais.

Na nossa casa modesta,
Quando o dia iniciava,
Você sozinho cozinhava,
Pra dia e noite de festa,
No seu bojo pioneiro,
Tinha lenha de pereiro,
De aroeira e de angico,
Teus panelões cozinhavam,
E os ventos pra longe levavam
O cheiro de um sertão rico.

Depois que os tempos passaram
Pra te botar pra trás
Os invejosos criaram
O tal do fogão de gás,
Cheio de brilho, floreios,
Chama acesa, cano cheios,
Com toda modernidade,
Sem agüentar repuxo,
Vendido a preço de luxo
Ao pessoal da cidade.

E cadê o teu dono ingrato?
Que atrás da modernidade
Hoje mora na cidade
E deixas-te aqui no mato,
Cercado pelos vasculhos,
Vive escutando os barulhos,
Como quem seja um pagão
Que Deus abriu os ouvidos
Pra escutar os gemidos
Dos seres da solidão.

Você está se liquidando
Eu lamento seus fracassos
Seu bojo está terminando
Nos mais pequenos pedaços
Salvando a sua memória
Pra não deixar a sua história
Ficar perdida na brenha
Me unir a seu dilema
Te transformei num poema
É você, fogão de lenha.


MEIO AMBIENTE
Autoria:Coroné Cafuçu
Antonio Nascimento
Seu moço o que me entristece
É ver a árvore tombada
O homem só oferece
Destruição e mais nada
O corpo do nosso chão
Esta cheio de erosão,
Ferida e mais ferida,
Sem saber que esse perverso
Irá pagar o processo
Deixando a terra sem vida.

E nosso rio gigante,
Que era perenizado
Hoje ta ameaçado
A morte a qualquer instante,
Morreram seus afluentes
E seus peixes sobreviventes
Já estão contaminados,
Suas águas transparentes
Tem produtos poluentes
E seus dias estão contados.

Destroçam nossa paisagem
Com a arma vem e intimida,
Ainda roubando a vida
Da nossa fauna selvagem.
Com o ódio se agiganta
Matando a ave que canta
Com expressão e beleza
Que cada crime que ocorre
Agente sabe que morre
O hino da natureza.

Seja também defensor
Combata a poluição
E não seja exterminador
Desse pedaço de chão
Deixe o rio descer,
Nossa floresta crescer,
Nascendo uma nova semente
Pare a conduta de guerra,
Que você matando a terra
Também está matando a gente.


Nosso ar esta poluído
Tão queimando a nossa mata
Falta água na cascata,
O cerrado esta tingido
O nosso globo aquecendo
O mar também esta morrendo
O vulcão agigantado,
E nessa ação tirana
Tem no meio a mão humana
E o homem quem é o culpado.


Se envolva com o movimento,
Que amanhã inicia
Faça reflorestamento,
Plante uma árvore todo dia,
Se una aos outros mestres
Salve os animais silvestres
Rios, matas e represa,
Não deixe a terra ter fim
Que você fazendo assim
Salva a nossa natureza.



MME ENGANEI NA ELEIÇÃO
Autoria:Coroné Cafuçu
Nós precisava um patrão
E lembremo de um candidato
Que andasse atrás de mandato
Na epá da eleição
Minha veia disse: Opa,
Vou pedir um guarda-roupa,
Cama, lençol e colchão,
Umas calça pra Zefinha,
Dois vestido pra toinha
Pá no domingo ir pra feira,
E quando o meu for recebido,
Você faz o seu pedido
Do tamanho que você queira.
Ai eu fiquei pensano
No banco véi assentado,
Vou pedir pro deputado
Tudo que tô precisano,
Dois sapato de vaqueta,
Pá, chibanca, picareta,
Facão, foice e roçadeira.
Silo pra botar feijão,
Veneno pro algodão
E um boi de campinadeira.
Nós sentado no batente
por desconto do pecado,
Pois lá vinha o deputado
Arrudiado de gente,
E quando foi me avistano,
Foi logo mim preguntando
“Como é que vai seu Reimundo”?
Vou aqui que nem matuto
E em meno de mei minuto
Deu a mão pra todo mundo.
Ai disse o deputado,
“Eu por aqui tô passano,
Também vim lhe visitar,
Que eu vou mim candidatar,
E duns voto tô precisano
E ganhando a minha atitude
Vou defender a saúde
A cultura e a educação.
E um homi trabaiador,
Que sofre iguá o senhor
Que mora aqui no sertão.
Minha véa sartô e disse:
“Nós aqui não tem partido
Pra nós votá no senhor
Premêro eu faço um pedido.”
Ai fui meti dos péis
“Só os meus são mais de dez,
Porque sou pobre e carente,
Mas nós faz trampolim.
Nós dar os voto tudim
E o senhor ajuda a gente.
Ai disse o deputado
“Ta doido, os pedidos eu noto,
Pode confirmar os voto que o
negócio tá fechado”.
E vamo lá que a hora é essa,
Vai ter comício, ter festa,
Bebida e carne na banha.
Traga os votos que tiverem
Que eu dou o que vocês quiserem
Só é passar a campanha.
E logo as eleições chegou,
E nós fumo e fizemo assim,
Nós demo os voto tudim
E o deputado ganhou.
Depois sumiu pra Brasília,
Já enricou a família,
Com luxo e anel no dedo,
E tá assim com o presidente,
E mandou dizer pra gente
Que não vem aqui tão cedo.
Fiquei enraivado e crítico
Me enganá eu não premito,
E nunca mais eu acredito
Em conversa de político.
Minha véa, nem se fala
Quando fala treme a fala
Com um cacete na mão
Nós ta muito emaguado
Por que nós foi enganado,
Na epá da eleição.



ENTERRO DE ZÉ COITADO
Autoria:Coroné Cafuçi
Eu conheci Zé Coitado
Caboco de pele grossa,
Morava numa palhoça
Lá no serrote do gado,
Cativo de expressão,
Simples ganhador do pão,
E pelo destino mandando,
Pobezin aventureiro,
Que pra ganhar um dinheiro
Vendia um dia alugado.
Zé vivia a me dizer,
Diante do que sofria,
Quera doidin pra morrê,
E a deus já pedia o dia,
Pá deixá de passa fome,
Pá retirá o seu nome,
Do mundo da crueldade,
Que com o fim desse romance,
De Deus ganhava uma chance,
Lá na santa eternidade.
Só que Zé tinha um pedido,
Quera do seu interesse,
Que um dia quando morresse,
Queria ir bem vestido,
Cum caixão de tampa boa,
Flores branca e uma coroa,
Vela acessa e castiçais,
Além de vela e coroa,
Umas cinqüenta pessoa,
Do caxão rezando atrás.
Zé queria que o vigário,
Deste que não tem preguiça,
Celebrasse trinta missa,
Pra ele no santuário,
Os sino tudim batendo,
As vela tudo se ardeno,
Clareano igual candêa,
Seu irmão dano soluço,
E de um político um discurso,
De quatro horas e meia.
Zé queria em seu velório,
Mortalha e terço marrom,
E na hora do ofertório,
Acumpanhace com um som,
Um bom cordão na cintura,
um trecho da escritura,
Lido com cautela e calma,
Falando da sua fome,
Quando tocasse em seu nome,
Houvesse uma salva de palma.
Uma cova bem cavada,
Das outras bem diferente,
Que ficasse separada,
De um lado nenhum parente,
Encima uma cruz de madeira,
De angico ou de aruêra,
Com o nome bem espalhado,
Do jeito que a outra tem
Zé pobizin, Zé ninguém,
Zé nadinha, Zé coitado.
No dia que Zé morreu,
Por falta de fé castiça,
O padre não disse a missa,
Na frente do corpo seu,
O caixão não foi tocado,
No sino não foi tocado
O som do seu funeral,
Pá Zé não se mais lembrado,
Deixaro Zé enterrado.
Num buracão bem cavado
Depois do fim do quintal.



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