ENGENHO QUEBRADO Autoria:Coroné Cafuçu Antonio Nascimento
No Sítio Trapiá tem Um velho engenho quebrado Entre as trempes do passado longe do seu dono muito além Depois dele está ausente Ele tornou-se indigente E órfão de sua riqueza. Está manchado de preto, Igual um homem esqueleto Agonizando a fraqueza.
Da sua ferragem dura Já se foi mais da metade Também a outra estrutura Sumiu-se na tempestade Está findando o desenho Das peças do velho engenho Paró, fornalha e caldeira Manjara, tronco e moenda Se botarem para venda Eu não vejo quem lhe queira.
Com sentimento que tenho Olhando o martírio dele Comecei falar por ele Como se fosse um engenho Ah! Se chegasse um vivente Pra me reformar urgente, Voltando a minha estrutura Pra ver meu paró enchendo, Minhas caldeiras fervendo, E um montão de rapadura.
Já dei tanta alegria Pra todos eu já dei fartura, Não faltava rapadura, Alfenim, garapa fria. Muita rapa de gamela, Mel fino numa panela, Batida e mel com tempero, Ia pra o povo da praça Tudo isso era de graça E ninguém falava em dinheiro.
E esse flagelo meu, De estar no abandono, Foi porque perdi meu dono, E depois que ele morreu, Aqui vivo abandonado, Estou deteriorado, sozinho, sem companhia, minha carcaça sumindo, O tempo me consumindo, até o meu útimo dia.
O vento me dá açoite O tempo bravo me tomba Vem o fantasma da noite Me rodeia grita e zomba Até um rasga mortalha Visita o teto sem palha Nessa solidão percebo O vento da madrugada Passa me dando pancada Calmo e tristonho eu recebo.
Estou perdido na era Entre os porões do passado Só um homem iluminado Me faz voltar o que eu era Se eu voltasse a trabalhar E o povo desse lugar Ficasse perto de mim Morria a minha pobreza Nascia a minha riqueza Meu reino não tinha fim.
Como poeta fiquei Contagiado de dores E logo a sair falei Aos primeiros moradores Com minha filosofia E pedi na poesia Pra o povo que estava lá Cada um com seu empenho Dá pra salvar o engenho Da fazenda Trapiá.
|
FFOGÃO DE LENHA
Autoria:Coroné Cafuçu
Voltei a casa da gente Pra cá da curva do venha Pra ver um fogão de lenha, Do tempo de antigamente Depois que o tempo passou-se, A casa quase acabou-se, Caibo, ripa, telha e linha, E pra minha recordação Só encontrei o fogão No recanto da cozinha.
Cercado pelos remorsos Sem ter brasa e sem centelhas, Dentro de um bojom de troços De cinza e caco de telhas. Nas brechas os ratos correndo Encima aranhas tecendo, Teias com manchas amarelas E o vento com um capricho Jogando ruma de lixo Onde botavam as panelas.
Eu disse velho fogão Sinto muito a sua ausência Eu pequei por inocência Hoje choro a separação E de você já fui lenheiro, Ajudante, cozinheiro, Te ascendi nos madrigais, Hoje entre nós é verdade Tem um fogo de saudade Que ninguém apaga mais.
Na nossa casa modesta, Quando o dia iniciava, Você sozinho cozinhava, Pra dia e noite de festa, No seu bojo pioneiro, Tinha lenha de pereiro, De aroeira e de angico, Teus panelões cozinhavam, E os ventos pra longe levavam O cheiro de um sertão rico.
Depois que os tempos passaram Pra te botar pra trás Os invejosos criaram O tal do fogão de gás, Cheio de brilho, floreios, Chama acesa, cano cheios, Com toda modernidade, Sem agüentar repuxo, Vendido a preço de luxo Ao pessoal da cidade.
E cadê o teu dono ingrato? Que atrás da modernidade Hoje mora na cidade E deixas-te aqui no mato, Cercado pelos vasculhos, Vive escutando os barulhos, Como quem seja um pagão Que Deus abriu os ouvidos Pra escutar os gemidos Dos seres da solidão.
Você está se liquidando Eu lamento seus fracassos Seu bojo está terminando Nos mais pequenos pedaços Salvando a sua memória Pra não deixar a sua história Ficar perdida na brenha Me unir a seu dilema Te transformei num poema É você, fogão de lenha.
|
MEIO AMBIENTE Autoria:Coroné Cafuçu Antonio Nascimento
Seu moço o que me entristece É ver a árvore tombada O homem só oferece Destruição e mais nada O corpo do nosso chão Esta cheio de erosão, Ferida e mais ferida, Sem saber que esse perverso Irá pagar o processo Deixando a terra sem vida.
E nosso rio gigante, Que era perenizado Hoje ta ameaçado A morte a qualquer instante, Morreram seus afluentes E seus peixes sobreviventes Já estão contaminados, Suas águas transparentes Tem produtos poluentes E seus dias estão contados.
Destroçam nossa paisagem Com a arma vem e intimida, Ainda roubando a vida Da nossa fauna selvagem. Com o ódio se agiganta Matando a ave que canta Com expressão e beleza Que cada crime que ocorre Agente sabe que morre O hino da natureza.
Seja também defensor Combata a poluição E não seja exterminador Desse pedaço de chão Deixe o rio descer, Nossa floresta crescer, Nascendo uma nova semente Pare a conduta de guerra, Que você matando a terra Também está matando a gente.
Nosso ar esta poluído Tão queimando a nossa mata Falta água na cascata, O cerrado esta tingido O nosso globo aquecendo O mar também esta morrendo O vulcão agigantado, E nessa ação tirana Tem no meio a mão humana E o homem quem é o culpado.
Se envolva com o movimento, Que amanhã inicia Faça reflorestamento, Plante uma árvore todo dia, Se una aos outros mestres Salve os animais silvestres Rios, matas e represa, Não deixe a terra ter fim Que você fazendo assim Salva a nossa natureza.
|
MME ENGANEI NA ELEIÇÃO Autoria:Coroné Cafuçu
Nós precisava um patrão E lembremo de um candidato Que andasse atrás de mandato Na epá da eleição Minha veia disse: Opa, Vou pedir um guarda-roupa, Cama, lençol e colchão, Umas calça pra Zefinha, Dois vestido pra toinha Pá no domingo ir pra feira, E quando o meu for recebido, Você faz o seu pedido Do tamanho que você queira.
Ai eu fiquei pensano No banco véi assentado, Vou pedir pro deputado Tudo que tô precisano, Dois sapato de vaqueta, Pá, chibanca, picareta, Facão, foice e roçadeira. Silo pra botar feijão, Veneno pro algodão E um boi de campinadeira.
Nós sentado no batente por desconto do pecado, Pois lá vinha o deputado Arrudiado de gente, E quando foi me avistano, Foi logo mim preguntando “Como é que vai seu Reimundo”? Vou aqui que nem matuto E em meno de mei minuto Deu a mão pra todo mundo.
Ai disse o deputado, “Eu por aqui tô passano, Também vim lhe visitar, Que eu vou mim candidatar, E duns voto tô precisano E ganhando a minha atitude Vou defender a saúde A cultura e a educação. E um homi trabaiador, Que sofre iguá o senhor Que mora aqui no sertão.
Minha véa sartô e disse: “Nós aqui não tem partido Pra nós votá no senhor Premêro eu faço um pedido.” Ai fui meti dos péis “Só os meus são mais de dez, Porque sou pobre e carente, Mas nós faz trampolim. Nós dar os voto tudim E o senhor ajuda a gente.
Ai disse o deputado “Ta doido, os pedidos eu noto, Pode confirmar os voto que o negócio tá fechado”. E vamo lá que a hora é essa, Vai ter comício, ter festa, Bebida e carne na banha. Traga os votos que tiverem Que eu dou o que vocês quiserem Só é passar a campanha.
E logo as eleições chegou, E nós fumo e fizemo assim, Nós demo os voto tudim E o deputado ganhou. Depois sumiu pra Brasília, Já enricou a família, Com luxo e anel no dedo, E tá assim com o presidente, E mandou dizer pra gente Que não vem aqui tão cedo.
Fiquei enraivado e crítico Me enganá eu não premito, E nunca mais eu acredito Em conversa de político. Minha véa, nem se fala Quando fala treme a fala Com um cacete na mão Nós ta muito emaguado Por que nós foi enganado, Na epá da eleição.
|
ENTERRO DE ZÉ COITADO Autoria:Coroné Cafuçi
Eu conheci Zé Coitado Caboco de pele grossa, Morava numa palhoça Lá no serrote do gado, Cativo de expressão, Simples ganhador do pão, E pelo destino mandando, Pobezin aventureiro, Que pra ganhar um dinheiro Vendia um dia alugado.
Zé vivia a me dizer, Diante do que sofria, Quera doidin pra morrê, E a deus já pedia o dia, Pá deixá de passa fome, Pá retirá o seu nome, Do mundo da crueldade, Que com o fim desse romance, De Deus ganhava uma chance, Lá na santa eternidade.
Só que Zé tinha um pedido, Quera do seu interesse, Que um dia quando morresse, Queria ir bem vestido, Cum caixão de tampa boa, Flores branca e uma coroa, Vela acessa e castiçais, Além de vela e coroa, Umas cinqüenta pessoa, Do caxão rezando atrás.
Zé queria que o vigário, Deste que não tem preguiça, Celebrasse trinta missa, Pra ele no santuário, Os sino tudim batendo, As vela tudo se ardeno, Clareano igual candêa, Seu irmão dano soluço, E de um político um discurso, De quatro horas e meia.
Zé queria em seu velório, Mortalha e terço marrom, E na hora do ofertório, Acumpanhace com um som, Um bom cordão na cintura, um trecho da escritura, Lido com cautela e calma, Falando da sua fome, Quando tocasse em seu nome, Houvesse uma salva de palma.
Uma cova bem cavada, Das outras bem diferente, Que ficasse separada, De um lado nenhum parente, Encima uma cruz de madeira, De angico ou de aruêra, Com o nome bem espalhado, Do jeito que a outra tem Zé pobizin, Zé ninguém, Zé nadinha, Zé coitado.
No dia que Zé morreu, Por falta de fé castiça, O padre não disse a missa, Na frente do corpo seu, O caixão não foi tocado, No sino não foi tocado O som do seu funeral, Pá Zé não se mais lembrado, Deixaro Zé enterrado. Num buracão bem cavado Depois do fim do quintal.
|
Nenhum comentário:
Postar um comentário